Navegando nas Águas Turvas do Discurso
IV Ciclo de Debates EPPEO Com Professor Doutor Carlos Alberto Faraco

A realização de entrevistas qualitativas, etnografias, análises de documentos, observações (participantes ou não), diários de campo, pesquisa-ação, entre outras técnicas, em pesquisas nas áreas das humanidades e das ciências sociais e aplicadas, tem aumentado de forma exponencial nos últimos trinta anos no Brasil. Este fenômeno pode estar ocorrendo porque a “análise de discurso”, dependendo dos procedimentos adotados em sua condução, parecem ser relativamente mais simples, menos trabalhosos, mais rápidas e fáceis do que as entrevistas com base em questionários fechados nas quais se utilizam técnicas estatísticas. No entanto, a prática tem mostrado, à exaustão, que as análises são muito mais complexas do que se acredita.

Nas chamadas “pesquisas qualitativas”, com base em textos/entrevistas, é relativamente comum trabalhos acadêmicos recheados de transcrições de extratos de entrevistas/textos. São, simplesmente, transcrições de trechos, geralmente selecionados em conformidade com a aderência à teoria de referência, a partir dos quais o pesquisador pretende deduzir uma realidade (por vezes já suposta no referencial teórico antecedente). Além do aspecto da seletividade dirigida, trata-se igualmente de uma interpretação (pelo pesquisador) da interpretação (pelo entrevistado ou pelo registro textual) da realidade: uma abstração em segundo grau. Sequer há explicações sobre quem é o sujeito da fala (qual sua história social), o que fala (qual é sua perspectiva no tema), onde fala (em que local, em que espaço político ou organizacional), quando fala (em que contexto micro e macrossocial), de onde fala(de que “lugar” da realidade estudada) e com quem fala ao falar com o pesquisador. Com isso, torna-se impossível ao pesquisador saber com a devida profundidade sobre o que o sujeito fala (sobre qual a realidade de referência). Qual a garantia, para o pesquisador, de que o discurso representa (da forma mais próxima possível) a realidade referida?

Análise (crítica) de (do) discurso passa a ser uma fórmula metodológica adotada para resolver os problemas da representação da realidade com referência científica. Entretanto, poucos são os pesquisadores e estudantes da área dos Estudos Organizacionais que possuem algum conhecimento da Análise de Discurso. Na maioria dos casos, é comum pesquisadores assegurarem estar fazendo análise de discurso, mas efetivamente parecem levar adiante simples interpretações de texto tendo em vista uma teoria predefinida ou um pressuposto teórico.

Qual é o grande problema? É como alcançar a realidade material à qual o discurso se refere. Se o discurso é já resultado de uma mediação pelo pensamento, como aquilo que é enunciado na fala ou no texto (documentos, etc.) pode ser correspondente à realidade que lhe deu origem? Que cuidados devem tomar os pesquisadores? Que critérios? Que limites? Enfim, quando se entrevista, por exemplo, trabalhadores de uma fábrica, o que fazer para chegar o mais próximo possível da realidade que eles reportam?

Para debater esse tema o Grupo de Pesquisa EPPEO convidou o Professor Doutor Carlos Alberto Faraco, Professor Titular Emérito da UFPR, um dos mais importantes linguistas do Brasil, profundo conhecedor da análise de discurso, especialmente em Bakhtin.   

O evento será on-line, no dia 08/06/2022, das 16:00h às 18:00h.

Confira a gravação do evento: